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PISA registra a pior leitura já medida — e o que a IA tem a ver com isso

PISA · 22 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

Em 8 de setembro de 2026, a OCDE divulgou os resultados do PISA e dois números circularam no mesmo dia. O primeiro: os alunos avaliados registraram o pior nível médio de desempenho já observado desde que o exame existe, com uma deterioração que a própria organização classificou como especialmente preocupante em leitura. O segundo: quase metade dos estudantes brasileiros já usa inteligência artificial ou chatbots pelo menos uma vez por semana durante os estudos.

É tentador juntar os dois e concluir a coisa óbvia. O relatório não permite — e o que ele permite é mais interessante.

O tamanho da queda

O PISA avaliou cerca de 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países e territórios, em ciências, leitura e matemática.

Na última década, nos países da OCDE, a leitura caiu 28 pontos. A matemática, 22. As ciências ficaram praticamente estáveis, com queda de sete pontos entre 2015 e 2025. Para dar escala a esses números: a própria OCDE calcula que 20 pontos equivalem a mais ou menos um ano de escolarização. Ou seja, em leitura, o aluno de 15 anos de hoje chega onde o aluno de 15 anos de dez anos atrás chegava com mais de um ano a menos de estudo.

Éric Charbonnier, especialista em educação da OCDE, resumiu o diagnóstico: ciências estáveis, quedas de mais de 20 pontos em leitura e matemática.

E o Brasil, caiu?

Aqui o retrato brasileiro exige uma correção importante na leitura das manchetes. A queda histórica descrita pela OCDE é a média dos países mais ricos. O Brasil não caiu.

Segundo a nota de país publicada pela própria OCDE, os resultados brasileiros de 2025 ficaram praticamente iguais aos de 2022 nas três áreas — e próximos do nível observado em todas as avaliações desde 2015. Uma década de estabilidade.

É uma notícia boa e uma notícia ruim ao mesmo tempo. Boa porque o Brasil não participou do retrocesso da última década. Ruim porque o patamar em que ele está parado é muito baixo:

  • Em leitura, 49% dos alunos brasileiros alcançam o nível 2, considerado o mínimo — média da OCDE: 69%. Nível 2 significa conseguir identificar a ideia principal de um texto de tamanho moderado.
  • Em matemática, o número cai para 28% — média da OCDE: 65%.
  • Em ciências, 48% — média da OCDE: 74%.
  • No topo da escala, 1% dos alunos brasileiros atinge os níveis 5 ou 6 em leitura (média da OCDE: 6%) e praticamente nenhum em matemática (média: 8%).

Há ainda um dado que conversa diretamente com o resto deste texto. Entre 2015 e 2025, a diferença de desempenho em ciências entre os 25% de alunos mais favorecidos e os 25% menos favorecidos aumentou no Brasil, enquanto diminuía na média da OCDE. No período, o desempenho melhorou entre os alunos mais favorecidos e ficou estável entre os mais pobres.

A queda não é uniforme. Nos países fora da OCDE, a leitura recuou 16 pontos — metade da perda observada nos países mais ricos. E há sistemas que subiram: Estônia, Reino Unido, Finlândia, Irlanda, Canadá e Nova Zelândia ficaram acima da média. As primeiras posições seguem asiáticas — regiões chinesas em ciências e matemática, Singapura em leitura.

Por que a queda em leitura é a mais grave

A OCDE explica por que separou a leitura das outras duas: ela é a base da maioria das aprendizagens escolares. Resolver um problema de álgebra, analisar uma fonte histórica, interpretar um experimento científico — tudo passa por ler o enunciado e entender o que está sendo pedido.

Um aluno que lê mal não tem um problema de português. Tem um problema em todas as matérias ao mesmo tempo, que aparece disfarçado de dificuldade em matemática, em ciências, em história.

Para explicar a tendência, o relatório cita o uso crescente de telas, a perda de interesse pela leitura entre os jovens e as mudanças na relação dos estudantes com a escola desde a pandemia.

O que o PISA diz — e não diz — sobre IA

Esta foi a primeira vez que o PISA investigou comportamentos de aprendizagem no mundo digital, e os números brasileiros ficam acima da média: 48% dos alunos no Brasil usam ferramentas de IA para aprender ao menos uma vez por semana, contra 46% na média da OCDE. Nunca usaram: 11% no Brasil, 14% na média.

A nota de país da OCDE detalha para quê essas ferramentas são usadas no Brasil — e é aqui que o retrato fica mais nítido:

Para que o aluno usa a IABrasilMédia OCDE
Pesquisa inicial sobre um tema novo40%31%
Resumir um texto que precisava ler31%30%
Redigir um texto de trabalho escolar27%29%

O achado sobre desempenho é onde a leitura apressada erra. O relatório constatou que o uso mais intensivo dessas ferramentas costuma estar associado a resultados piores em ciências. Parece conclusivo — até a frase seguinte, que registra que alguns dos sistemas educacionais mais bem-sucedidos, como Singapura e Macau, estão entre aqueles cujos alunos declaram usar IA com maior frequência.

Os dois fatos convivem no mesmo relatório. Isso significa que a quantidade de uso não explica o resultado: o que muda é para que a ferramenta é usada. Onde a IA entra num sistema escolar organizado, com professor orientando, ela acompanha bons resultados. Onde entra sozinha, no lugar do esforço, acompanha os piores.

Thaís Araújo Soares Rocha, especialista em metodologia da educação, resumiu a regra em entrevista à Record News: usar a IA “como tutora”, não como alguém que responde no lugar do aluno. E defendeu que o uso seguro e crítico da ferramenta seja ensinado na própria escola, não descoberto por tentativa e erro.

O cruzamento que preocupa

A habilidade mais frágil — no mundo, a que mais caiu; no Brasil, a que está parada num patamar baixo — é a leitura. E ler um texto é, entre todas as tarefas escolares, a mais fácil de terceirizar para um chatbot: basta colar o texto e pedir um resumo.

Isso não é hipótese. O próprio PISA foi medir: 31% dos alunos brasileiros declararam usar IA para resumir um texto que precisavam ler. Quase um em cada três.

Quando isso acontece, o aluno recebe a informação sem ter feito o percurso que constrói a compreensão — ler devagar, voltar atrás, reler a frase que não fez sentido, sustentar a atenção por três páginas. O resumo chega pronto; o treino de leitura, não acontece.

Uma ressalva honesta: o relatório não afirma que esse hábito causou a fragilidade em leitura. Essa ligação não está estabelecida — e, no caso brasileiro, não houve queda a explicar. O que o PISA mostra é o tamanho do hábito, não o seu efeito. Mas é razoável olhar com atenção para um atalho tão disponível justamente na habilidade que sustenta todas as outras.

O que fazer em casa

Não é preciso proibir nada para reverter o essencial disso:

Leitura de texto longo, sem atalho. Vinte minutos por dia de um livro que ele escolheu vale mais do que qualquer aplicativo de reforço. O ponto não é o conteúdo do livro — é o treino de sustentar atenção em texto.

A regra do resumo. Pedir à IA para resumir um texto que ele precisava ler é o único uso que vale a pena vetar. Pedir para explicar uma parte que ele leu e não entendeu é legítimo, e é o oposto.

Enunciado antes da conta. Boa parte do erro em matemática não é de cálculo, é de leitura. Antes de resolver, vale ele explicar em voz alta o que a questão está pedindo.

É esse último ponto que os exercícios do Rumo ao 10 exercitam a cada questão: enunciados autocontidos, que exigem interpretação antes do cálculo, e explicação do raciocínio depois que o aluno confirma a resposta — nunca antes.

Fontes: reportagens do Correio do Povo/AFP e do R7/Record News, ambas de 8 de setembro de 2026. Os dados do Brasil vêm da nota de país do PISA 2025, publicada pela OCDE.

Exercícios que pedem interpretação antes do cálculo

Questões de 6º ao 9º ano com enunciado autocontido, feedback imediato e gabarito comentado — que só aparece depois que o aluno confirma a própria resposta.

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